quarta-feira, 21 de julho de 2010

!!! Viginianos por Drummond !!!

 Carta de Amor encontrada no carro do metrô, e dizia assim:

“Estou pensando seriamente em declarar greve de mim a você, por tempo
indeterminado. Não me pergunte os motivos. Você sabe. Ou é melhor que não
fique sabendo, porque assim a greve é mais completa, e eu quero justamente
ser um grevista mais total do que os outros grevistas que brigam por salário
decente e condições decentes de trabalho.

Quero que você fique perturbada e confusa, sem saber o que eu estou fazendo
ou deixando de fazer, e a todo instante a se perguntar: “Que greve é esta?
Em que consiste? Quando vai acabar? Que coisa mais idiota.Ӄ isso mesmo:
você achará idiota a minha greve, porque não a entenderá. Então, o menor
gesto que eu fizer, a palavra mais sem significação, tudo se transformará
para você em enigma, você me sentirá o cara mais misterioso do mundo, por
que não dizer: o mais tenebroso.

Seu pequenino e encantador cérebro de colibri dará voltas a si mesmo e não
perceberá o sentido da minha abstenção oculta - de quê? E eu continuarei
firme, inflexível, grevista, sem expor minhas reivindicações.
De jeito nenhum.

Então você se desmanchará em suspiros, se enrodilhará toda a meus pés,
pedirá perdão de faltas não cometidas, e que eu não sabia que você fosse
capaz de cometer. Confessará também as cometidas, mas eu não darei bola e
continuarei a tratar você da maneira ambígua que estou anunciando. Você será
um poço de petróleo repleto de amor, eu recusarei sondar esse poço
inesgotável, ou finjo que estou sondando mas com vontade de não encontrar o
menor indício de petróleo. Esta fase será curta, pois não quero abusar de
sua amorosidade ofertada. Passemos à segunda fase.


Você se irritará comigo e, perdendo a paciência, me dirá duas ou três coisas
ácidas. Jogará um copo na minha direção. Ou uma xícara, dessas do trivial do
café. Eu desviarei o corpo do copo ou da xícara, e se você me jogasse em
cima um samovar seria a mesma coisa: não desistiria da greve. Aí você
adotava em princípio a idéia de enlouquecer. Só em princípio. Eu é que estou
pinel - concluiria você. Conclusão provisória, a ser confirmada pelo
psiquiatra, mas o psiquiatra, que é meu amigo, lhe responderia: Ele é assim
mesmo, isso passa.

Não vai passar não, talvez minha greve seja eterna, e nunca mais seremos
aqueles namorados que conquistaram o Oscar de melhor idílio no Festival de
Angra dos Reis. Continuaremos, sim, dois namorados unidos por esse laço
invisível da greve, como o empresário está cada vez mais preso ao
assalariado, ou este àquele, quando entram em conflito de interesses, mas
esta nossa categoria não dá prêmio.

A terceira fase… Haverá terceira fase? Você apelará para nossos amigos
comuns, ou para o Ministério da Comunicação Social, que aliás não existe,
existe só o Ministério, não a Comunicação? E que é que eles podem fazer para
acabar com uma greve tão fechada, tão silenciosa, tão sutil, que nem a
reforma da legislação trabalhista, por engenhosa que seja, lhe dará remédio?

Bem, se você faz mesmo questão fechada, se sua vida ficar dependendo da
elucidação das causas primárias e outras, da minha greve, então eu deixo no
carro do metrô um envelope lacrado com os seguintes dizeres (no verso):

“Razões e sem razões
de minha
greve particular.
Para ser aberto
no caso
de uma explosão nuclear.”

Não adianta abrir, nessa emergência? Nem haverá quem abra o envelope? Quem
sabe? Sempre resta um sobrevivente, ou vários. A Bíblia o demonstra. Eu não
posso revelar o meu segredo nem diante de uma comissão de inquérito
parlamentar. Minha greve é absoluta. Tenha paciência, garota, não faço por
menos, nem admito intervenções no meu sindicato. Meu sindicato sou eu.

Tem uma coisa. Não deduza de tudo isto que estou declarando guerra. Guerra é
guerra, greve é outra coisa, e a minha então é outríssima. Sem quebra,
atenuação ou extinção de amor. Pois você não vê, boba, bobíssima, que isto
ainda é amor, é mais amor do que amor, é minha forma de amar você, de um
jeito só meu, que nem você mesma é capaz de aprender em sua mineral
abismalidade? ‘Dio come te amo! Até.”

Carlos Drummond de Andrade